Mortalidade perioperatória feminina foi mais que o dobro da masculina: 8,4% vs. 3,8% (OR 2,40).
- Mortalidade perioperatória feminina foi mais que o dobro da masculina: 8,4% vs. 3,8% (OR 2,40).
- Centros de baixo volume mais que dobraram a mortalidade das mulheres em relação aos de alto volume: 14,6% vs. 7,1%.
- Os dados são robustos — registro nacional obrigatório, 1.150 pacientes —, mas ausência de dados anatômicos detalhados (calibre ilíaco, comprimento de colo, tortuosidade) e de protocolos operatórios limita a interpretação causal; os achados demonstram associação, não causalidade definitiva.
Num registro nacional com cobertura quase universal, a mortalidade perioperatória de mulheres submetidas a reparo endovascular complexo de aneurisma aórtico foi sistematicamente maior que a dos homens. A associação entre sexo feminino e piores resultados após EVAR infrarenal já está consolidada na literatura. O que este estudo holandês acrescenta é um dado modificável — e com magnitude expressiva: o volume anual do centro parece operar como amortecedor do risco de forma desproporcional nas mulheres.
O que foi feito
Os autores analisaram todos os pacientes registrados no Dutch Surgical Aneurysm Audit (DSAA) entre 2016 e 2021 submetidos a FEVAR ou BEVAR eletivo por aneurisma aórtico intacto. O DSAA é um registro prospectivo e mandatório de procedimentos vasculares nos Países Baixos. Foram incluídos 1.150 pacientes em 30 hospitais — 925 homens (80,4%) e 225 mulheres (19,6%). O desfecho primário foi mortalidade perioperatória (óbito hospitalar ou em 30 dias); o efeito do volume foi modelado de forma contínua (splines cúbicos) e categórica (limiar de 10 procedimentos/ano), com teste de interação formal (Wald χ²) entre sexo e volume.
Os números que importam
A mortalidade global foi 4,7% (54 óbitos): 3,8% nos homens e 8,4% nas mulheres — OR 2,40 (IC 95% 1,25–4,51; p = 0,007), mantido após ajuste multivariável.
Complicações pós-operatórias: 40,0% vs. 30,3% (p = 0,006); intraoperatórias: 20,2% vs. 11,1% (p < 0,001). Isquemia medular apareceu em 12,4% das mulheres contra 6,9% dos homens (p < 0,001), e metade de todos os casos de paraplegia (15 de 31) ocorreu em pacientes do sexo feminino — que representam apenas 19,6% da coorte. Complicações cardíacas foram o dobro (7,6% vs. 3,5%), reintervenção foi maior (14,3% vs. 9,2%; p = 0,031) e a internação mais longa (mediana 5 vs. 4 dias; p < 0,001).
O failure to rescue (morte após complicação maior) foi 26,7% nas mulheres versus 17,9% nos homens — mas os autores reconhecem que a diferença parece ser guiada mais pelo maior número de complicações do que pela incapacidade de resgate.
O efeito-volume é onde a história fica interessante
Nos homens, as curvas de volume-mortalidade mostram linha essencialmente horizontal em torno de 4%, independentemente do volume do centro. Nas mulheres, a curva desce acentuadamente: em hospitais com menos de dez procedimentos/ano, a probabilidade de morte perioperatória estimada supera 12% (chegando a 20% no limite inferior dos IC). Em centros de alto volume, cai para cerca de 5%.
Em termos absolutos: mortalidade em centros de baixo volume foi 14,6% nas mulheres versus 7,1% nos de alto volume (OR 2,13, IC 95% 1,12–3,99; p = 0,019). O teste de interação confirmou que o efeito do volume é significativamente diferente entre os sexos (Wald χ² = 6,40; p = 0,041). Os cálculos de risco atribuível sugerem que aproximadamente 10 dos 19 óbitos femininos poderiam ter sido potencialmente mitigados se todas as mulheres tivessem sido operadas em centros de alto volume — estimativa que pressupõe ausência de outros confundidores não capturados.
Análises de sensibilidade (exclusão de urgências, limiar de 15 casos/ano, restrição a centros com ≥20 pacientes) não alteraram materialmente os resultados.
O que o registro não captura — e por que isso importa
A limitação mais relevante é a ausência de dados anatômicos. Nesta coorte, 58,2% das mulheres tinham aneurismas toracoabdominais versus 28,6% dos homens — diferença morfológica que, por si só, explica parte do excesso de complicações neurológicas. O DSAA não registra calibre ilíaco, comprimento de colo, tortuosidade nem protocolos de proteção medular.
Os autores identificaram, em análise suplementar, que a disparidade de mortalidade entre sexos foi mais pronunciada no subgrupo FEVAR (7,6% vs. 3,4%; p = 0,052) — não apenas no BEVAR, que concentraria os casos mais complexos. Isso sugere que a anatomia desfavorável das mulheres não é a única explicação, mas o confundimento residual por fatores anatômicos não pode ser descartado. O volume cirurgião — separado do volume institucional — também não estava disponível, impedindo distinguir expertise individual do efeito sistêmico do centro.
O que fazer com esses dados
A leitura convergente do NSQIP americano (centros heterogêneos, disparidade expressiva por sexo) e do US Fenestrated and Branched Aortic Research Consortium (pool de alto volume, gap atenuado), agora reforçada pelos dados holandeses, é coerente: o sexo feminino está associado a risco intrínseco, e parte da mortalidade feminina poderia ser potencialmente mitigada em centros de maior volume.
Este estudo acrescenta a dimensão do sexo ao debate pela centralização do FEVAR/BEVAR: os dados sugerem que a não centralização está associada a desfechos piores para todos, com impacto proporcionalmente maior nas mulheres. Os autores recomendam que mulheres sejam tratadas preferencialmente em centros que realizem pelo menos 10 — e idealmente mais de 20 — procedimentos complexos por ano.
Por se tratar de estudo observacional, os achados demonstram associação, não causalidade definitiva. A próxima etapa necessária é enriquecer o registro com dados anatômicos e de protocolo operatório, sem os quais permanece impossível separar o que é biologia da doença do que é qualidade do cuidado.
de Bruin JL, Rastogi V, Alberga AJ, et al. Factors Influencing Sex Specific Outcomes after Complex Endovascular Aortic Aneurysm Repair: Insights from a National Vascular Registry. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2026. doi: 10.1016/j.ejvs.2026.05.031
Figuras-chave