Em 36 meses, amputação maior foi estimada em 3,6% das feridas, chegando a 14,8% no WIfI 4 — gradiente associativo claro, independente do estágio.
- Em 36 meses, amputação maior foi estimada em 3,6% das feridas, chegando a 14,8% no WIfI 4 — gradiente associativo claro, independente do estágio.
- WIfI 1 e 2 se comportam de forma semelhante na cicatrização; a separação real começa no estágio 3, com probabilidade de cicatrização cerca de 35% menor no ajuste multivariável.
- Os números refletem um centro multidisciplinar de excelência — a baixa taxa de amputação provavelmente não é automaticamente reproduzível em outros contextos.
- O WIfI estratifica risco; a conduta clínica depende do julgamento integrado da equipe.
O pé diabético resiste às taxonomias simples. Uma úlcera pode ser isquêmica, neuropática, infectada, ou as três coisas ao mesmo tempo, e o prognóstico muda radicalmente conforme essa combinação. Foi exatamente para estruturar essa complexidade que a SVS desenvolveu o WIfI em 2014 — mas a maioria dos dados que validam o sistema para nas 12 semanas dos ensaios clínicos, ou no melhor dos casos em 12 meses. O que acontece depois, especialmente em pacientes com diabetes, permanecia em grande parte desconhecido.
O grupo de Caitlin Hicks em Johns Hopkins tentou preencher esse vazio com uma coorte de mais de 10 anos — julho de 2012 a dezembro de 2023 — do seu serviço multidisciplinar de preservação de membro. O resultado acaba de ser aceito pelo Journal of Vascular Surgery.
O que foi analisado
São 1.187 feridas diabéticas complexas em 477 pacientes, classificadas prospectivamente pelo WIfI. A coorte é predominantemente negra (60,8%), idade média de 60 anos, com PAD em 49%, neuropatia com perda de sensação protetora em 89% e dois terços em insulinoterapia — espectro real de um serviço terciário de preservação de membro. A distribuição por estágio ficou equilibrada: 32% WIfI 1, 23% WIfI 2, 24% WIfI 3 e 21% WIfI 4. Revascularização ipsilateral em 31,8% (14,4% no WIfI 1 contra 68,7% no WIfI 4); cirurgia podológica em 47%.
Os números centrais
Cicatrização completa (epitelização plena ≥6 semanas) ocorreu com tempo médio de 147 dias (±156 dias): há feridas que fecham em semanas e outras que levam mais de um ano. As taxas estimadas por Kaplan-Meier foram 81% em 12 meses, 95% em 24 meses e 97% em 36 meses.
Amputação maior ocorreu em 43 membros (3,6%), mediana de seguimento de 19 meses (0–98 meses). Por estágio: 0,26% no WIfI 1, 2,9% no WIfI 2, 4,6% no WIfI 3 e 8,5% no WIfI 4. Taxa acumulada em 36 meses: de 0,5% (WIfI 1, IC 95% 0,07–3,46%) a 14,8% (WIfI 4, IC 95% 6,5–32%), p<0,001.
O que o ajuste multivariável acrescenta
No modelo de Cox, WIfI 1 e 2 são indistinguíveis para cicatrização (aHR 0,96; IC 95% 0,77–1,20). A separação começa no estágio 3: aHR 0,65 (0,52–0,82), mantida no estágio 4: aHR 0,62 (0,49–0,79). PAD independente e área da ferida também retardaram a cicatrização (aHR 0,79 e 0,992/cm², respectivamente).
Para amputação maior, as razões de risco ajustadas são expressivas — WIfI 2: HR 10,6; WIfI 3: HR 12,9; WIfI 4: HR 26,2 —, mas com intervalos amplos (WIfI 4: 3,34–204,6) pela escassez de eventos (43). A direção da associação é robusta; a magnitude deve ser lida com cautela.
O que é novo e o que não é
Que WIfI prediz cicatrização e amputação já estava estabelecido em 16 estudos e uma meta-análise de 2024. O ponto novo é o horizonte temporal: os autores são, até onde a literatura permite afirmar, o primeiro grupo a publicar dados de cicatrização estratificados por WIfI além de 12 meses em coorte exclusivamente diabética. O EURODIALE reportou 77% de cicatrização em 12 meses — próximo dos 81% aqui. Saber que 95% cicatrizam em dois anos tem implicação direta para a conversa sobre até quando persistir no plano conservador.
As taxas de amputação estão no limite inferior da literatura (0%–40% para estágios avançados). Os autores atribuem isso ao modelo multidisciplinar — hipótese plausível, mas não separável da seleção de um serviço terciário de referência. A baixa taxa provavelmente não é automaticamente reproduzível em outros contextos.
O que o estudo não pode responder
Com 43 amputações em 1.187 feridas, o modelo para amputação é subpotenciado — os intervalos de confiança para WIfI 4 atravessam duas ordens de grandeza. A direção da associação é sólida; a magnitude não.
O WIfI foi atribuído na apresentação inicial e não reclassificado após intervenção. Cheun et al. (2025) mostram que o restaging pós-intervenção altera substancialmente o prognóstico — o WIfI captura uma fotografia, não um filme.
Apenas um terço das feridas requereu revascularização, tornando esta coorte muito diferente de uma população clássica de CLTI. O WIfI aqui reflete mais os componentes W (ferida) e fI (infecção) do que o I (isquemia) — limitação importante ao extrapolar para serviços com perfil vascular mais grave. Os achados demonstram associação, não causalidade.
O que fazer com esses dados
A taxa de 97% de cicatrização em três anos é um benchmark útil para a conversa sobre persistência no plano conservador — com a ressalva do desvio padrão de 156 dias, que implica variância enorme e custo progressivo. A estabilização da curva de amputação após 12 meses (9,2% em 24 e 36 meses) sugere que o maior risco se concentra no primeiro ano, orientando a intensidade de seguimento. O WIfI estratifica risco; a conduta depende do julgamento integrado da equipe, não do escore isolado.
O recado mais sóbrio do paper: "wound healing should be viewed as the transition into a remission phase, not the conclusion of the disease course." Com recorrência de úlceras de 50–60% em três anos, fechar a ferida é o começo. O protocolo de Johns Hopkins — reavaliação a cada 3–6 meses pós-cura, vigilância vascular trimestral no primeiro ano — é uma resposta operacional a essa realidade.
Figuras-chave